COVID-19 no Brasil: maioria da população pobre não consegue fazer quarentena

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “COVID-19 no Brasil: maioria da população pobre não consegue fazer quarentena”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto 1

Pobreza no Brasil faz da quarentena uma tendência dos ricos e famosos

Um dos sintomas do coronavírus é o oportunismo do horror, outro é achar que humanidade vai mudar após a peste.

Luiz Felipe Pondé
ponde.folha@uol.com.br

A quarentena virou tendência de comportamento. O chique é estar de quarentena brincando de aspirador de pó, conversando com plantas, cozinhando brócolis, fazendo ioga e lendo russos. Não fazer quarentena é coisa de pobre, bolsonarista, ignorante e fumante. De repente, o chique é posar de igualdade social. Imitar as empregadas enquanto faz live. Peste “instagramworthy” (peste que vale uma live). É claro que isso passa ao largo do desespero real e vira uma espécie de gourmetização da peste, criando algo como um surto psicodélico em escala social.

De onde esse povo inteligente tirou a ideia de que o mundo vai mudar depois da peste? A primeira prova de que não vai mudar nada é que os inteligentinhos coronials já estão em ação.

Nunca vi tanto self-marketing se vendendo como se fora amor à vida. E disseram que o mundo não ia voltar ao normal? Já voltou, em parte. A vaidade, o oportunismo, o marketing de comportamento, o mercado dos horrores afetivos, as feministas dizendo que dominarão o mundo, tudo aí, pra quem quiser ver. Alguém já provou que vírus só existe em sociedades patriarcais e carnívoras? Logo coletivos de ciências sociais o farão. Enfim, o ridículo voltou às ruas. Olhemos de mais perto a sintomatologia. Sempre achei a disciplina de clínica médica fascinante: uma espécie de trabalho de detetive mergulhado em sinais e sintomas pra identificar possíveis causas.

Um dos sintomas do corona no plano cognitivo e intelectual é o oportunismo do horror. Esse já identificamos. Vamos adiante. Outro, também no plano das funções cognitivas, é achar que a humanidade vai mudar depois da peste. Uma possível explicação para esse sintoma talvez seja o desespero e o tédio que a quarentena gera em nós. É compreensível. Mas a humanidade já passou por inúmeras pestes piores que esta e nunca mudou. Esta é, apenas, a primeira “instagramworthy”.

Depois da espanhola e de outras piores, a humanidade saiu do mesmo jeito que sempre foi. E por que raios a saída dessa seria diferente? Vou explicar a razão.

A ciência primeira hoje é o marketing. Por isso, muitas pessoas querem passar a imagem que o coração delas é lindo e que depois da epidemia, o mundo ficará lindo como elas. A utopia fala sempre do utópico e não do mundo real. É sempre uma projeção infantil da própria beleza narcísica de quem sonha com a utopia.

A epidemia de utopias fala coisas como: vamos respeitar mais os mais humildes. Seremos mais solidários —durante a epidemia, muitos, sim, com certeza, ainda bem, mas passada a peste, a maioria voltará a ser como sempre foi. Os humanistas de quarentena voltarão a fazer lives dos hotéis caros que frequentam. Seremos menos consumistas? Vida mais simples? Como assim? Se até pra escolher comida somos o povo mais chato da história. Um estoicismo gourmet?

O mundo estará mais pobre, provavelmente. Os pobres mais pobres, menos dinheiro circulando. A economia será uma ciência ainda mais triste. Isso dará um baque no debate Keynes x Hayek, em favor do primeiro, grosso modo. Mais gasto do Estado —já está acontecendo. Passaremos por um momento parecido com a reconstrução da economia da Europa pós-Segunda Guerra: foco em diminuição de tensões sociais, com razão. O Estado de bem-estar social nasceu desse foco. O mundo será mais competitivo ainda, porque mais inseguro. Mecanismos de controle invasivo valorizados agora por tanta gente bacana poderão ganhar ares de maior segurança social e de saúde. A segurança dará de 7 x 1 na liberdade.

O mundo será mais remoto. Mundo remoto é mundo de solitários. As relações entre as pessoas já estão difíceis, agora o serão com as bênçãos dos coronials.

Encaremos os fatos: no Brasil só classe média alta e alta podem fazer quarentena. Só eles têm reserva financeira. A esmagadora maioria da população vai pedir esmola, seja do Estado, seja nas ruas. A pobreza no Brasil faz da quarenta uma tendência de comportamento dos ricos e famosos. Perguntar por que os pobres não fazem quarentena é perguntar por que eles não comem bolo, já que não têm pão.

Luiz Felipe Pondé 
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2020/04/pobreza-no-brasil-faz-da-quarenta-uma-tendencia-dos-ricos-e-famosos.shtml

 

Texto 2

‘Quarentena é um privilégio que muitos trabalhadores não podem ter’

18/03/20 por Paulo Eduardo Dias

Para biomédico Jonathan Vicente, governos precisam criar políticas específicas para combater coronavírus nas periferias.

Diante da pandemia do coronavírus, veio a recomendação da Organização Mundial da Saúde: isolamento. Além disso, campanhas de higienização das mãos com água e sabão, e o álcool gel. Essa regra é geral, tem sido propagada diariamente por governos, pela imprensa, por especialistas na área da saúde.

Em entrevista à Ponte, o biomédico Jonathan Vicente, 29 anos, concorda que são práticas eficazes, no entanto, chama a atenção para um cálculo não feito: a falta de acesso a essas medidas de profilaxia. “Infelizmente a população mais vulnerável são os pobres e, por isso, deveriam haver políticas de prevenção para essa população que considerassem essas desigualdades”, pontua.

Para trabalhadores informais, como camelôs e faxineiras, por exemplo, o home office é um privilégio. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma morte que está em suspeita de ter sido provocada por coronavírus vitimou uma diarista, contaminada pela patroa que havia voltado da Europa.

Em favelas, onde a concentração de pessoas é maior, o isolamento é uma utopia. Comprar álcool gel, que vem sendo vendido a valores 4 vezes maior, é uma distante realidade. O mesmo acontece para populações vulneráveis, como os encarcerados — são cerca de 812 mil atrás das grades, segundo o Conselho Nacional de Justiça — ou quem vive nas ruas, uma população de mais de 24 mil pessoas, de acordo com o Censo dos Moradores em Situação de Rua.

Graduado em biomedicina pela Universidade Anhembi e pós-graduado em ciência política pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Jonathan Vicente, que estudou o processo de formação do SUS (Sistema Único de Saúde), afirma que “a rede pública está preparada [para receber doentes com coronavírus], mas precisa de um financiamento maior para atender a demanda”.

 

Confira a entrevista:

 

Ponte – O primeiro caso confirmado do coronavírus no Brasil foi de gente rica e branca. Mas as primeiras mortes, uma confirmada e uma ainda sob investigação, foram de um porteiro e de uma diarista. Podemos pensar que entre a população vulnerável o vírus será mais letal?
Jonathan Vicente – O vírus ataca todos, porém, infelizmente a população mais vulnerável são os pobres. Deveriam haver políticas de prevenção para essa população também, já que se há desigualdades, há desigualdades no quesito saúde e bem estar. O pobre não possui a mesma qualidade de saúde que o rico. A classe rica possui os melhores hospitais, convênios e até mesmo alguns tratamentos de qualidade mais avançada que o pobre, que representa uma grande parcela da população.

 

Ponte – Estamos preparados para combater a doença na população mais pobre e vulnerável?
Jonathan Vicente – Se as políticas públicas forem combater a doença de forma diferente para aqueles que moram na periferia ou alojamentos, acredito que sim. Porém, não estão criando políticas de combate para essa população específica. Temos grandes regiões que não possuem acesso à água potável e muito menos espaços na residência para quem precisa de quarentena, por exemplo.

 

Ponte – Quais condições encontradas em favelas ou ocupações que podem aumentar as possibilidades de proliferação da doença?
Jonathan Vicente – Locais onde não têm acesso à água potável, grandes aglomerações, residências com pouco acesso à ventilação e pequenos cômodos. A desigualdade estrutural é grande, infelizmente.

 

Ponte – E a questão dos trabalhadores informais, com destaque para as diaristas, como fica?
Jonathan Vicente – Esse é um dos grupos que podem sofrer mais, principalmente por precisar sair para trabalhar e colocar o ganha pão dentro de sua residência. A maioria são mulheres sozinhas e com filhos, e que, portanto, necessitam trabalhar. Muitos trabalhadores não terão a mesma oportunidade de se por em quarentena. A quarentena é um privilégio. Mas reforço que é um dos melhores métodos de não propagação da doença, de acordo com várias organizações de saúde internacional, inclusive a Organização Mundial da Saúde. Uma sugestão de como deveria ser é a mesma que a Itália fez para conseguir colocar um país inteiro em quarentena: ajuda econômica. E reforçarem os patrões a deixarem suas empregadas em casa, mas remuneradamente, algo que infelizmente não acredito que possa acontecer.

 

Ponte – E os moradores de rua? É maior a possibilidade de propagação da doença?
Jonathan Vicente – Os moradores de rua são bem vulneráveis a contrair o vírus, principalmente por possuírem contato direto com várias pessoas ao mesmo tempo, incluindo o contato com moedas e notas que a população entrega para eles. Não sei se vocês sabem, mas cerca de 10% a 15% dos moradores de rua estão acima de 60 anos, e isso faz deles um grupo de risco. A prefeitura de São Paulo decidiu disponibilizar um protocolo de atendimento para os moradores de rua, no caso aos profissionais que trabalham com essa população (Programa Redenção, que atua na região da Luz, onde há venda e uso de crack, por exemplo, os Caps, que são os centros de Atenção Psicossocial), eles foram orientados a acionar o SAMU em casos graves, e sempre utilizar EPI (Equipamento de Proteção Individual), oferecer máscara para o morador, questionar o local onde ele esteve, limpar e desinfetar o carro sempre que for transportar o morador de rua. Mas não informaram se irão disponibilizar medicamentos para eles. Ou seja, há uma grande lacuna. Somente casos muito graves serão atendidos.

 

Ponte – Quais as soluções possíveis? O governo federal, por exemplo, anunciou o “coronavoucher”, uma ajuda de R$ 200 para trabalhadores informais que não estejam no Bolsa Família. Esse é um caminho?
Jonathan Vicente – A solução é totalmente de responsabilidade política. A população tem a parcela de se proteger com o que possui, como água e sabão, e se possível disponibilizar para quem precisa também. Seria um apoio que o governo municipal, estadual ou federal deveria disponibilizar para essa população em específico. Cada estado está disponibilizando uma forma de assistência. No âmbito federal, o governo antecipou o abono do PIS, além de antecipar para maio a primeira parcela do 13º salário para aposentados, algo que pode fazer falta lá na frente de certa forma.

 

Disponível em: https://ponte.org/quarentena-e-um-privilegio-que-muitos-trabalhadores-nao-podem-ter/

 

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