Perspectivas e desafios do ENEM Digital

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Perspectivas e desafios do ENEM Digital”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Texto 1

Especialistas apontam desafios para realização do Enem digital
Computadores defasados e ausência de internet estão entre os problemas
Publicado em 07/07/2019 – 17:50
Por Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil – Brasília

 

Vinte computadores defasados e com pouco acesso à internet. É assim que o diretor do Centro de Ensino Médio 404, Felipe de Lemos Cabral, descreve a estrutura de informática à disposição dos alunos da escola, localizada em Santa Maria, no Distrito Federal (DF). Situada a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília, Santa Maria é uma das regiões administrativas do DF.

Quando perguntado se os estudantes estariam preparados para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) digital, Cabral diz que nem todos têm sequer familiaridade com os computadores. “Hoje o aluno está muito mais inserido via celular. Usam muito a rede social e sabem pouco lidar com o resto da informação que a internet disponibiliza. Têm pouco acesso técnico, têm pouca formação do trato com o computador, com coisas simples como formatar um texto, por exemplo.

De acordo com o Censo Escolar 2018, 82% das escolas públicas de ensino médio regular têm laboratório de informática e 94%, acesso à internet. Cabral ressalta, no entanto, que, como ocorre na escola que dirige, nem sempre o equipamento é suficiente para atender à demanda. Além disso, ele destaca que os professores teriam que ser formados para inserir a tecnologia nas aulas.

Não é má ideia, não seria ruim [o Enem digital], mas acho que teria que ter uma preparação maior do sistema para isso“, diz Cabral. Ele teme que o exame passe a excluir estudantes que não tenham acesso a computadores, que terão mais dificuldade em fazer as provas. “Pode dificultar o acesso dos alunos ao exame e, com isso, cair o número de inscritos“.

Na semana passada, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que o Enem passará a ser feito por computador. Isso ocorrerá gradativamente, começando no ano que vem com um grupo de 50 mil estudantes. A digitalização completa está prevista para 2026.

A ideia, que não é nova e busca seguir uma tendência mundial de modernização, gerou uma série de questionamentos. Segundo especialistas entrevistados pela Agência Brasil, o MEC terá que enfrentar certos desafios para implementar a digitalização do Enem. Um dos desafios é a escassa disponibilidade de infraestrutura das escolas.

 

Provas criptografadas
Outra questão apontada por especialistas é a segurança do exame. “Tem que ter certeza de que todos os sistemas, de ponta a ponta, do momento em que se liga o computador, em que é feita a prova, ao momento em que as provas são armazenadas e processadas, essas informações sejam criptografadas. E uma criptografia com uma robustez que não permita que, através da utilização de outras tecnologias, ela possa ser quebrada“, alterta o professor Renato Leite, do Data Privacy Brasil.

A criptografia é usada hoje, por exemplo, em aplicativos como o WhatsApp. Trata-se de transformar o conteúdo em códigos e tornar a mensagem impossível de ser lida quando armazenada. Apenas o destinatário final consegue ter acesso ao conteúdo.

Além disso, é preciso usar programas de computador confiáveis. Uma opção é o uso de softwares livres, cujos códigos são abertos e podem ser acessados.

De acordo com fundador e também professor do Data Privacy Brasil, Bruno Bioni, é preciso ainda garantir a proteção dos dados dos estudantes. “Toda vez que o governo se propõe a se informatizar, a ser um governo mais eletrônico, e isso envolve quantidade significativa de processamento de dados, isso deve ser acompanhado com cuidado. Tão importante quanto avançar nessas pautas de digitalização é mostrar preocupação com os dados dos cidadãos“, ressalta Bioni.

Ele destaca que, em agosto do ano que vem, entra em vigor a chamada Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei 13.709/2018). “Uma das coisas que a lei procura estabelecer é que, quando se está executando uma política pública como essa, deve-se ter todo um programa de governança de dados“, acrescenta Bioni. Ele alerta que o MEC deverá ter transparência quanto ao uso desses dados.

 

Debate
Para o professor Francisco Soares, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), a proposta do MEC precisa ainda ser detalhada e colocada em discussão. Soares era presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), quando, em 2015, o Ministério da Educação quis começar a testar o Enem digital. O professor lembra que, na época, foram feitos apenas estudos “ultrapreliminares”.

O Enem precisa de mudanças. Uma delas é trazer mais tecnologia. Eu acho que a iniciativa está em uma direção correta, era desejada, e tomara que agora seja implementada“, diz Soares. O professor considera necessárias audiências públicas para que todos os interessados e especialistas possam contribuir para a elaboração de um bom exame.

Se vamos mudar, a gente devia mudar para melhorar. O computador dá a chance de oferecer outro tipo de item. Ter simulações em itens de ciência, por exemplo. Se essa mudança for simplesmente para turbinar o velho, não vai adiantar muito. Ela traz possibilidade de uma coisa de impacto muito muito interessante, mas isso exige tempo“, destaca Soares.

Para o professor, o exame precisa deixar de apresentar apenas questões de múltipla escolha e incluir também questões discursivas. Além disso, que use recursos digitais, como vídeos, por exemplo. Isso, de acordo com o conselheiro, vai ajudar a mudar também a formação dos estudantes no ensino médio, já que muito do que é ensinado nas escolas é pautado pelo Enem e por vestibulares.

Soares ressalta também que, na fase de transição, na qual o Enem será aplicado no formato digital apenas para alguns alunos, é preciso garantir que os estudantes que optem pela prova digital tenham as mesmas chances de ser aprovados em uma universidade que aqueles q fizerem a prova em papel. Para isso, é preciso testar os itens em formato digital.

Será que um item específico é facilitado ou dificultado pelo fato de o estudante estar respondendo no computador ou no papel e lápis? Esta questão é importantíssima. É uma preocupação técnica que não tem como ser resolvida depois“, enfatiza.

O Enem é elaborado a partir de um banco nacional de itens, que reúne questões feitas por especialistas para as provas. Cada um dos itens é pré-testado em aplicações feitas em escolas. O processo é sigiloso, e os estudantes não sabem que estão respondendo a possíveis questões do Enem. Isso é feito, atualmente, em papel.

 

Ministério da Educação
Em entrevista coletiva sobre a infraestrutura das escolas, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse acreditar que, até 2026, a realidade brasileira terá mudado e o acesso a computadores será mais amplo.

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, informou que para a aplicação da prova poderão ser usadas estruturas de escolas e universidades, como já é feito hoje para o Enem em papel.

O MEC diz que pretende modernizar o exame, que poderá utilizar vídeos, infográficos e até mesmo seguir a lógica dos games. As medidas de segurança que serão tomadas ainda não foram detalhadas.

 

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2019-07/especialistas-apontam-desafios-para-realizacao-do-enem-digital

 

Texto 2

Enem digital retrata a desigualdade no Brasil
Por Isabel Cristina Vega Martinez 06/08/2019 ÀS 16H22

As grandes promessas do formato digital do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são a agilidade na apuração dos resultados da prova objetiva, já que o gabarito do candidato será lançado na plataforma do INEP em tempo real, e o acesso a recursos de imagem mais dinâmicos, com cores e movimento. Segundo o instituto, nesse formato, a banca poderia se valer de questões com linguagem mais moderna, com mais uso da tecnologia, inclusive, com questões semelhantes a games.

A promessa é instigante e interessante, sem dúvidas, mas, a meu ver, apenas para os candidatos de cidades grandes que têm acesso fácil a aparelhos de celular, internet e demais tecnologias, podendo discriminar ainda mais os candidatos do interior do país e os oriundos das escolas públicas. O formato digital claramente favorecerá um grupo determinado de candidatos, já que a educação brasileira ainda não é digital e já que muitos brasileiros ainda estão bem distanciados dessa linguagem moderna e tecnológica. O MEC reconhece esse distanciamento, tanto que a amostragem do Enem no formato digital contará com 50 mil provas apenas, ou seja, cerca de 1% do total de inscritos para o concurso de 2019, que ultrapassa os 5 milhões. A aplicação ocorrerá apenas nas maiores capitais e, seguindo essa lógica, deverá abranger as áreas mais favorecidas do ponto de vista cultural e econômico. Como esperar resultados isentos e justos dessa amostragem? Como afirmar, sem hipocrisia, que a realidade da amostragem reflete as condições socioculturais e econômicas de todos os candidatos?

O IBGE apontou, em pesquisa recente, que, em grande parte dos domicílios brasileiros (mais de 90%), há, de fato, acesso a aparelhos de telefonia celular, entretanto, esses aparelhos são usados para receber e enviar mensagens apenas e, mesmo assim, quando estão perto de redes wi-fi e quando há dinheiro para créditos, ou seja, eles são usados de forma pontual e utilitária, não como ferramenta de estudo frequente. Além disso, mais da metade da população não têm computador em casa e, nas escolas públicas, ainda mais com os constantes cortes/contingenciamentos nos investimentos em educação, não se pode contar com o uso continuado dele. Às vezes, até há máquinas nas escolas, mas elas estão quebradas, sem manutenção, ou não há acesso a internet.

No Brasil de hoje, considerando a realidade das escolas e dos candidatos às vagas das universidades brasileiras como um todo, o Enem digital é como uma maratona em que estarão concorrendo pessoas que pouco ou nunca usaram tênis na vida, mas o receberão no dia da disputa (com sorte, no tamanho adequado) e pessoas que usaram tênis do seu tamanho a vida inteira, que já testaram vários modelos e tiveram acesso aos melhores solados. Os organizadores da maratona podem até afirmar que todos tiveram os mesmos recursos, já que todos estavam calçados no dia da corrida, mas todos nós sabemos quais vão ser os favoritos.

Para um concurso minimamente justo, todas as escolas do Brasil precisariam ter acesso a computadores e internet, pelo menos no ensino médio, para, depois, se implantar o Enem na forma digital. Pena que o meio ambiente ainda tenha de pagar a conta, por meio do papel das provas, do sucateamento do ensino público e das desigualdades socioeconômicas no Brasil. Infelizmente, em boa parte do nosso país, a tecnologia ainda se restringe a papel, quadro e giz. E o professor precisa fazer (e faz) milagres para ajudar seu aluno a ingressar em universidades públicas do país.

 

Disponível em: https://www.qconcursos.com/artigos/enem-digital

 

Texto 3

Você pode gostar de

Deixe um comentário